A prática, que garante a segurança sanitária, visa
reduzir custos e resíduos
A pandemia do Covid-19 foi um duro golpe no setor de
alimentação fora do lar, com a suspensão temporária da circulação de pessoas e
a posterior retomada gradual das atividades. Naquele contexto, medidas como uso
de máscaras, álcool em gel e talheres embalados em plástico foram adotadas para
transmitir mais segurança aos clientes.
Muitos desses hábitos foram incorporados no setor, outros
esquecidos e há aqueles que devem ser reavaliados.
Sem comprovação de eficácia sanitária, o uso de saquinhos
plásticos ou papel para servir talheres se tornou um custo laboral e material
que adicionalmente produz uma grande quantidade de resíduos dificilmente
reciclados. Para Adriana Lara, líder de educação e especialista em segurança
dos alimentos, a prática não garante proteção adicional aos consumidores.
“As normas da Anvisa deixam claro que a segurança sanitária
está na adoção de boas práticas, como higienização correta, manipulação
adequada e armazenamento protegido dos utensílios. A embalagem plástica ou de
papel pode até transmitir uma sensação de cuidado, mas ele não substitui
processo. Se esse ato de embalar for feito sem os devidos cuidados, ele pode
inclusive produzir o efeito contrário ao desejado e favorecer a contaminação
cruzada. O talher bem higienizado, armazenado de forma protegida e manuseado
corretamente no momento do serviço é que efetivamente reduz o risco de
contaminação”, afirma.
Impacto ambiental das embalagens
Em operações diárias, centenas de embalagens são
descartadas, muitas delas feitas de plástico flexível, material de difícil
reciclagem no Brasil. Dessa forma, o volume de resíduos gerados preocupa
empresários.
Sandra de Azevedo, proprietária do restaurante Eguatche, em
Belém/PA, decidiu abandonar o uso dos saquinhos por conta do impacto ambiental
e por haver alternativas.
“Eu deixei de usar essas embalagens pela quantidade de
resíduos descartados no meio ambiente. Por mais que haja um impacto
financeiro na escolha de substituir a embalagem de plástico por uma cestinha
com lenço, o maior impacto é para a natureza”, comenta.
Essas embalagens, por serem leves e finas, costumam ter
baixo valor na cadeia de reciclagem e frequentemente acabam no lixo comum,
mesmo quando há separação adequada.
"Talvez seja uma das embalagens de uso único com o
menor tempo de vida útil. Basta 1 segundo para o cliente rasgar e inutilizar a
sacolinha. A pessoa nem pensa, é um ato quase automático. E para onde isso vai
depois? Precisamos conscientizar sobre o impacto ambiental e questionar o
sentido dessa prática. Incentivar clientes a higienizarem as mãos antes de se
servir ou comer é um hábito de higiene muito mais eficaz e evita a geração de
resíduos”, afirma a líder de ASG da Abrasel, Luiza Campos.
Custos e operação no dia a dia
O uso dos saquinhos também implica custos operacionais e de
mão de obra. Para embalar os talheres, é necessário tempo da equipe,
além da compra constante do material.
Segundo estimativas da Abrasel, um funcionário leva cerca de
uma hora para embalar 300 talheres, o que representa um gasto relevante, mesmo
em operações menores. Acrescenta-se a isso o tempo gasto com a compra das
famigeradas sacolinhas e a hora de trabalho desse funcionário - sem falar no
custo para o meio ambiente.
No restaurante Alecrim Sabor & Saúde, em Porto
Alegre/RS, o proprietário Anor Filipi relata que a prática exigia dedicação
diária da equipe antes da abertura do buffet e ainda gerava desperdício.
“A gente tinha que colocar, todos os dias, colher de sopa,
colher de sobremesa, garfo e faca dentro do saquinho antes de abrir o buffet.
Isso tomava tempo das funcionárias e ainda gerava desperdício, porque muitas
vezes o cliente não usava todos os itens e tudo precisava voltar para a
lavagem. Quando passamos a deixar os talheres higienizados e separados em
caixas, o processo ficou mais ágil, reduziu custos e liberou mais tempo da
equipe”, afirma.
Mudança de hábitos no setor
Em todo o Brasil, empresários têm revisto o uso de
embalagens plásticas para os talheres. Incorporada durante a pandemia, a
prática hoje é questionada por não oferecer ganhos efetivos de segurança, ao
mesmo tempo em que amplia a geração de resíduos e eleva custos.
Na busca por processos mais eficientes e sustentáveis,
empresários têm chegado à conclusão de que higiene e organização podem ser
garantidas por alternativas mais simples, sem recorrer ao plástico de uso único
ou ao papel.


